terça-feira, 14 de abril de 2009
Analise Critica
Hoje em dia, dominados pela mentalidade do liberalismo econômico as autoridades do governo insistem no discurso de que não há recursos suficientes para combater a pobreza, mais o AfroReggae vem fazendo um trabalho, com poucos recursos, de investir no potencial de jovens favelados, levando educação, cultura, arte e comunicação a territórios marcados pela violência policial e pelo narcotráfico, com o objetivo de conseguir criar alternativas de emprego e lazer. Enquanto alguns poucos podem comprar carros de luxo blindados e transformar suas casas em fortes cercados de sistemas de vigilância, para ter a ilusão de que estão protegidos, o AfroReggae vem trabalhando ao longo dos anos no sentido de acabar com os abismos que separam negros e brancos, ricos e pobres, na certeza de que esta é a única alternativa para que se possa construir uma paz duradoura. Eles acreditam que essa é a maneira mais eficiente de promover o desenvolvimento do país, começando por criar oportunidades para aqueles que estão em situação de risco pessoal, para que eles possam deixar de ser mais um número nas estatísticas de pobreza e violência e se tornarem cidadãos que contribuam para a construção de riquezas, e, na justa medida, possam também ter o direito de usufruir das mesmas.

O Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) surgiu em janeiro de 1993 como o jornal Afro Reggae Notícias - um veículo de comunicação que visava à valorização e a divulgação da cultura negra na favela de Vigário Geral. Seus planos eram de ter uma intervenção mais direta junto a população afro-brasileira, inaugurando assim o primeiro Núcleo Comunitário de Cultura, para o desenvolvimento de vários projetos sociais. Em pouco tempo, esse núcleo se consolidou a partir das primeiras oficinas - que foram dança, percussão, reciclagem de lixo, futebol e capoeira - e preparou o terreno para novas empreitadas.
O objetivo do AfroReggae é dar uma formação cultural e artística para jovens moradores de favelas de modo que eles tinham meios de construir suas cidadanias e possam escapar do caminho do narcotráfico e do subemprego, transformando-se também em multiplicadores para outros jovens. Com o passar do tempo os projetos foram se aperfeiçoando, a instituição foi crescendo e os resultados começaram a aparecer. Em 1997, o GCAR inaugurou o Centro Cultural AfroReggae Vigário Legal, um marco na sua história.
Atualmente, o AfroReggae desenvolve diversos programas e projetos em 4 diferentes comunidades. Apesar de toda a diversidade de atividades, a música tem sido o melhor instrumento para atrair os jovens a participar do GCAR. O sucesso obtido com a Banda AfroReggae, tanto artístico quanto como modelo de projeto social, fez com que outros jovens quisessem percorrer o mesmo caminho e, hoje, já existem mais 3 grupos musicais.
Em Parada de Lucas, favela vizinha a Vigário, onde as facções rivais do tráfico vivem em guerra desde 1985, foi iniciado em outubro de 2001 o projeto Rompendo Fronteiras, que teve o sentido de levar o trabalho social onde quer que ele fosse necessário, independente do fato de Lado A e B estarem em conflito. Lá em Parada de Lucas são ministrados cursos em diversas áreas da tecnologia digital oferecidos para a comunidade com o apoio da HP e da El Paso , além das oficinas de capoeira, história em quadrinhos e violinos. No Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, o GCAR utiliza a linguagem do circo - malabares, trapézio, acrobacias, etc. - para realizar um trabalho que traz alegria e consciência para jovens que vivem na corda bamba em vários sentidos. Desde 1996, funciona no anfiteatro do Ciep de Ipanema, uma oficina de circo aberta a comunidade.
O GCAR também tem o Programa de Comunicação, que conta com o site AfroReggae.org para ser um grande portal sobre o GCAR e a cultura afro-brasileira em geral, produzindo matérias jornalísticas para o Canal Futura e, finalmente, a AfroNet, que é um serviço de informes enviados via e-mail para manter a todos os cadastrados ligados nas atividades, eventos e iniciativas do GCAR.
Não bastasse isso tudo, o Afro Reggae criou sua própria produtora - a ARPA, Afro Reggae Produções Artísticas - para dar sustentação comercial a carreira profissional dos subgrupos criados a partir dos projetos sociais, em especial a Banda AfroReggae, e ainda contribuir com a ONG, já que 30% dos recursos obtidos com os eventos produzidos são revertidos para o GCAR. Ao contrário da trajetória natural do mercado, onde as grandes empresas criam institutos ou fundações para apoiar projetos culturais ou sociais, o GCAR é uma fundação que criou uma empresa para apoiar o seu trabalho social.
Desde a criação do espetáculo Nova Cara, em 1998, a banda AfroReggae vinha percorrendo uma trajetória rumo a sua profissionalização que culminou com a assinatura de um contrato com a gravadora Universal para produção do CD Nova Cara. Um dado importante é o fato de essa ter sido a primeira vez no Brasil que uma banda, originada de um projeto social, conseguiu produzir o seu primeiro disco por uma grande gravadora. Com um espaço físico bem estruturado dentro da comunidade, o trabalho do GCAR pôde se desenvolver com maior qualidade e planejamento, e com isto foi possível tornar esta iniciativa uma referência de prática sociocultural na cidade do Rio de Janeiro.
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